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terça-feira, 25 de março de 2008

FESTA DA ANUNCIAÇÃO






Quem entrar numa igreja ortodoxa ou greco‑católica notará sempre nas portas centrais da Iconostase o ícone representando a cena da Anunciação: numa folha da porta está o anjo Gabriel e na outra a Virgem. Às vezes a dimensão da cena pode até estar ieduzida, mas sempre o “início da salvação” é posto iconograficamente em posição de destaque e a mesma porta parece sugerir a idéia do ingresso de Deus na humanidade, ao encarnar‑se no seio da Virgem Maria.


Cristãos do Oriente e do Ocideate celebram, habitualmente juntos, a festa da Anunciação do Senhor, no dia 25 de março. Porém, enquanto os católicos romanos, tendo em conta o período litúrgico, por vezes transferem a data da festa, os fiéis de tradição constantinopolitana celebram‑na exatamente nesse dia, querendo respeitar os nove meses exatos em relação à data do Natal de Cristo, mesmo que esse dia tivesse de cair na Semana Santa.

Tropário (4º tom).
“Hoje é o começo da nossa salvação e a manifestação do eterno mistério: o Filho de Deus torna‑se Filho da Virgem e Gabriel anuncia a graça. Com ele aclamamos, pois, à Mãe de Deus: Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo!”

Assim o tropário principal da festa resume o evento da encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo e merece deter‑se na expressão “cheia de graça” que, no grego, como no eslavo, é formada por uma única palavra, como que um novo nome caracterizando a Virgem de Nazaré que se torna a Mãe de Deus e que inúmeras vezes se faz presente nos textos dos Ofícios do dia. Quase sempre a data cai durante a Quaresma, Por isso há somente um dia de pré‑festa e a celebração se conclui à tarde do mesmo dia 25, ao passo que, no dia 26, se lembra, conforme o costume bizantino, de comemorar no dia seguinte, o segundo protagonista da festa, o arcanjo Gabriel. O tropário da véspera convida à exultação:

Tropário (4º tom).
“Hoje é o prelúdio da alegria universal. Com júbilo celebremos a pré‑festa, pois Gabriel com espanto e temor se aproxima da Virgem para anunciar‑lhe a boa nova: Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo!”

É sabido que a palavra do original grego habitualmente traduzida por “Salve” ou “Ave,” literalmente significa “alegra‑te” e essa versão foi conservada no texto eslavo eclesiástico. Toda a celebração é rica de expressões poéticas em que se aprofunda a reflexão teológica sobre o grande mistério da encamação do Verbo: Maria é saudada como “sarça incombusta,” “abismo insondável,” “ponte que conduz aos céus e escada que ali se eleva, como Jacó a contemplou,” “nova Eva que desfez a maldição e chamamento de Adão,” receptáculo do ser que nenhum outro pôde conter.” Nas Vésperas se fazem cinco leituras bíblicas tiradas do Antigo Testamento: Gênesis (escada de Jacó), Êxodo (sarça ardente), Provérbios (“A Sabedoria construiu para si uma casa” e “O Senhor me possuiu desde o começo”) e Ezequiel (a porta pela qual o Eterno passará e que depois permanecerá fechada). Lá pelo fim há uma composição hinográfica de André de Jerusalém († 740) que é uma síntese dos temas e o tom da festa:

“Hoje é o ledo anúncio da alegria, triunfo da Virgem; as coisas aqui debaixo se harmonizam com as de cima; Adão foi renovado e Eva libertada da tristeza primitiva; o tabernáculo da nossa mesma natureza, com a divinização da substância assumida, foi consagrado Templo de Deus. Ó Mistério! Incompreensível é a maneira desse rebaixamento, inefável a maneira desse concebimento. Um anjo se encarrega dessa missão prodigiosa; um regaço virginal acolhe o Filho; o Espírito Santo é enviado do alto; o Pai, nos céus, se compraz e a união acontece por vontade comum. Salvos nele e por ele, unamos as nossas vozes à de Gabriel e gritemos à Virgem: Ave, ó cheia de graça, da qual veio a salvação, Cristo, nosso Deus, que, tendo assumido a nossa natureza, a elevou à altura da sua. Roga‑lhe para que salve nossas almas!”

Uma particularidade do Cânon do ofício matinal desse dia é a forma dialogal com o qual foi composto. As estrofes se alternam entre o diálogo da Mãe de Deus e o diálogo em que o anjo fala. As seis primeiras Odes são de autoria de São Teófanes, o “Marcado,” bispo de Nicéia († 845) e as outras três têm como autor São João Damasceno. A cada estrofe‑tropário repete‑se a invocação: “Santíssima Mãe de Deus, salva‑nos!”

Também através de perguntas, hesitações, respostas de esclarecimento, o Ofício do dia confirma aquilo que o conhecido teólogo bizantino, leigo, Nicolau Cabásilas, afirmava a respeito da Anunciação: “A encarnaçao, não foi somente obra do Pai, da sua potência e do seu Espírito; mas foi também obra da vontade e da fé da Virgem,” a qual, num hino das Vésperas, depois que o anjo lhe tinha lembrado que “quando Deus quer, a ordem da natureza é vencida e obras prodigiosas são realizadas,” assim exclama:

“Faça‑se em mim segundo a tua palavra: porei ao mundo aquele que não tem corpo e que de mim tomará carne, para reconduzir o homem à sua primitiva dignidade, pois somente ele pode fazê‑lo, mediante esta união.”

O evento que celebramos no dia 25 de março aconteceu em Nazaré, no Oriente. É compreensível, pois, que tal festa tenha começado a ser celebrada ali. Foi introduzida em Roma, posteriormente, pelo papa Sérgio 1, já por nós citado, um siciliano de origem síria e de cultura grega.
O belíssimo hino Akáthistos, em honra da Mãe de Deus, tão apreciado pela piedade popular bizantina há cerca de treze séculos, e que agora começa a ser conhecido também no Ocidente, está presente em diversos trechos do Ofício da festa, como por exemplo no proêmio que precede as vinte e quatro estrofes do hino, ou no kontákion (8º tom) cujo texto transcrevemos em seguida:

“Ó Mãe de Deus, invencível estratega, nós, teus servos, elevamos a ti o hino de vitória e de gratidão por ternos salvado de terríveis calamidades. Tu, pois, cujo poder é irresistível, livra‑nos de todo mal, para que possamos a ti clamar: Ave, Virgem e Esposa!

Para concluir, eis a reflexão de Pavel Florensky, sacerdote ortodoxo russo — gênio poliédrico ao qual a mesma Enciclopédia soviética dedicou três colunas — falecido num lager nos anos Quarenta: “O momento da Anunciação, no qual a criação, na pessoa da Mãe de Deus, acolhe a divindade em si mesma, contém toda a eternidade e, nesta, toda a plenitude dos tempos. A festa da Anunciação, do ponto de vista cósmico, celebra‑se no equinócio da primavera ... Como nesse equinócio está incluída em germe toda a plenitude do ano cósmico, assim a Anunciação contém, como o botão de uma flor, a plenitude do ano eclesiástico. Pois bem, o ano cósmico e o ano eclesiástico são figuras do ano ontológico, isto é, o ano ou a plenitude dos tempos e das pausas de toda a história mundial. Esta está contida inteiramente na Virgem Maria, e a Virgem Maria se expressa por completo no momento da anunciação.”


Fonte: O Ano Litúrgico Bizantino, Madre Maria Donadeo

LEITURA DAS SAGRADAS ESCRITURAS:
Lucas 1:39-49,56; Gênesis 7:1-5; Provérbios 8:32-9:11; Êxodo 3:1-8; Provérbios 8:22-30; Hebreus 2:11-18; Lucas 1:24-38

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